O padrão culto e popular da linguagem



Como você já deve ter percebido, o processo de comunicação efetiva-se num enunciado falado ou escrito. Portanto, distinguem-se duas modalidades para a interação social pela linguagem: a falada e a escrita.
Tanto na história da humanidade, como em nossa história individual, primeiro falamos, depois escrevemos. E mais: a modalidade falada é adquirida naturalmente, enquanto a escrita é aprendida. Na fala, o significante é sonoro (conjuntos de sons - fonemas - que representam uma ideia); na escrita, é gráfico (conjuntos de letras, representações gráficas dos sons da língua).
As modalidades falada e escrita têm características particulares na produção do enunciado, o que permite reconhecer marcas da escrita e marcas da oralidade.
http://queropassar.net/Essas características diferenciais são extremas, podendo existir acomodações de acordo com o tipo de gênero textual que se está produzindo e, ainda, de acordo com o registro empregado (coloquial ou padrão culto) na situação real de produção. Assim, em situações formais como na apresentação de um trabalho acadêmico, exige-se um texto falado de alta complexidade de planejamento e no registro do padrão culto, modalidade usada na redação do vestibular, por exemplo; numa aula expositiva, espera-se um texto falado planejado e no registro do padrão culto; numa conversa com um amigo, pressupõe-se um texto falado pouco planejado e no registro coloquial.
Conhecendo as marcas de cada modalidade, podemos avançar um pouco mais: nem todo texto falado pertence à modalidade falada e nem todo texto escrito pertence à modalidade escrita. Observem estes três exemplos significativos:
- o texto falado por um apresentador de telejornal é, via de regra, um texto que pertence à modalidade escrita: é previamente planejado, contínuo, apresenta estruturas sintáticas elaboradas; em outras palavras: tem todas as marcas da escrita e nenhuma marca da oralidade (na verdade, o texto é previamente escrito e, no ar, é lido pelos apresentadores);
- fala do professor Alfredo Bosi numa mesa-redonda sobre a obra de Machado de Assis, reproduzida em livro:
Não sei se devo fazer a pergunta que eu tinha preparado, porque acho que, do que foi dito aqui, muitas coisas ficaram em aberto, poderiam ser aprofundadas. Em todo caso, vou fazer essa pergunta e vocês responderão se quiserem, ou, se preferirem, poderão voltar às coisas que ficaram em suspenso nas intervenções anteriores.
BOSI, Alfredo et ai. Machado de Assis. São Paulo: Ática, 1982.
- Apesar de chegar ao leitor na forma escrita, trata-se evidentemente de um texto da modalidade falada, com suas marcas características.
- fragmento do romance Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade, em que ocorrem duas situações distintas: o texto do narrador com marcas da modalidade escrita e as falas de personagens com marcas da oralidade:
Esperou. Dona Laura mal respirava muito nervosa, não sabendo principiar.
- É por causa do Carlos... -Ah... Sente-se.
- Não vê que eu vinha lhe pedir, Fráulein, pra deixar a nossa casa. Acredite: isto me custa muito porque já estava muito acostumada com você e não faço má ideia de si, não pense! mas... Creio que já percebeu o jeito de Carlos... ele é tão criança!... Pelo seu lado, Fráulein, fico inteiramente descansada... Porém esses rapazes... Carlos...
ANDRADE, Mário de. Amar, verbo intransitivo. 10. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. p. 76.

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