Figuras de linguagem que exploram a sonoridade


Tenho abordado em vários artigos o uso das figuras de linguagem, ou melhor, dos recursos sonoros na expressividade de um texto. Eu não tinha, no entanto, falado sobre as figuras de linguagem. É bastante importante que você não deixe de estudá-las. por meio da repetição do método e conhecimento das figuras é que na hora da prova de Literatura ou mesmo durante um exercício de interpretação de textos você não ficará perdido tentando lembrar daquilo que seu professor falou.

Bem, como eu disse, nos itens anteriores, observamos diferentes maneiras de explorar a sonoridade de um texto. Agora, analisaremos algumas figuras de linguagem, de uso já consagrado, que potencializam o ritmo, a musicalidade dos textos.

Figuras de Linguagem e a produção de textos


  • Onomatopeia: Consiste em passar um determinado som para a escrita; a onomatopeia transforma-se, assim, num processo de formação de palavras. As onomatopeias têm sua carga significativa na sonoridade e não no conceito, ou seja, valem apenas pelo significante. Leia, em voz alta, os dois fragmentos seguintes de Álvaro de Campos (um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa) e perceba como ele explora ora a vibração do r, ora o estalado do t e do qu:
"Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!" (ode triunfai)
"Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever." (Datilografia)


PESSOA, Fernando. Fernando Pessoa - obra poética. 7. ed.Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.

No desenho, em primeiro plano, está o Arqueiro Verde pulando do alto do prédio do hospital e, ao fundo, envolto em sombras, o temível vilão Onomatopeia.



"Tic... Tac... O tempo corre contra Oliver Oueen. Blam! Um tiro na cabeça mandou seu filho, Connor Hawke, em estado grave para uma mesa de cirurgia. Chuff! O vilão Onomatopeia chegou ao hospital. Ping! Ele quer acabar o serviço que começou. Ciash! O Arqueiro Verde não vai permitir. E ainda: praticando tiro a longa distância, Oliver lembra-se de uma velha história que envolve um ser imortal e o disparo mais difícil de toda a sua vida."
Disponível em: <www.universohq.com/Ouadrinhos/2003/n2307200301.cfm>.



  • Aliteração: Consiste na repetição de fonemas para sugerir um som. Difere da onomatopeia na medida em que esta imita um som (tique-taque, r-r-r-r-r, etc); a aliteração é sugestão. Por exemplo, quando Caetano Veloso brinca com as palavras e escreve: "Amor morto motor da saudade". Explora, principalmente, a repetição do fonema consonantal vibrante representado pela letra r e do fonema consonantal bilabial representado pela letra m, sugerindo (e não imitando) o ronco de um motor. A aliteração não é tão evidente como a onomatopeia.

Observe os exemplos:

Perguntas & respostas
Paciente que sou de entrevistas, muita vez atendo a perguntas das mais estapafúrdias.
Por que está escrevendo a mão? Por que não usa a máquina?
- Porque o tic-tic, o toc-toc, ou o puc-puc da máquina me picota a cuca.
As entrevistadoras (eram umas menininhas) gostaram do estilo. Foi de propósito. Especialmente para elas.

QUINTANA, Mário. A vaca e o hipogrifo. Porto Alegre: LP&M, 1983. p. 113.

Quando o poeta cria uma palavra para imitar um som, está fazendo onomatopeia, como em tic-tic, toc-toc, puc-puc. Já quando ele escreve "máquina me picota a cuca", a combinação de determinados fonemas (/In/, /p/, /t/) sugere o som da máquina de escrever - isso é aliteração.

Leia em voz alta os seguintes versos e perceba a sonoridade resultante da repetição de certos fonemas:

No poema O Navio Negreiro, de Castro Alves:

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança

No poema Violões que choram, de Cruz e Souza.

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

No poema Velho vento, também de Cruz e Souza.

Velho vento vagabundo!
No teu rosnar sonolento
Leva ao longe este lamento,
Além do escárnio do mundo.


  • Assonância: Consiste na repetição de sons vocálicos. Veja este exemplo, no verso do poema "Garoa do meu São Paulo", de Mário de Andrade:
"Garoa do meu São Paulo, Timbre triste de martírios"


  • Eco: O eco consiste na repetição de um determinado som no final de palavras em sequência (difere, por exemplo, da rima: esta aparece de forma estruturada ao final de versos; já o eco é trabalhado no interior de uma frase ou de um verso). Mas, cuidado! O eco pode se constituir num defeito quando a sua sonoridade não tiver valor expressivo, como em"... dando seguimento ao acompanhamento do escalonamento, encerramos tal procedimento."
Como exemplo de uma repetição sonora bem trabalhada, transcrevemos um fragmento de texto do poeta baiano Gregório de Matos:

Que falta nesta cidade?........................Verdade
Que mais por sua desonra?.................Honra.
Falta mais que se lhe ponha?.............Vergonha.
(...)
E que justiça a resguarda?...................Bastarda.
É grátis distribuída?..............................Vendida.
Que tem, que a todos assusta?...........Injusta.


  • Paronomásia: Consiste na aproximação de palavras semelhantes no som, mas distintas na significação (parônimos) como no ditado popular "Quem casa quer casa.". Veja mais um exemplo:
Aquela que era moça no mar vira peixe mas peixe sem mexer, peixe que não nada. Nada!
O ditado popular brinca com palavras homófonas e homógrafas, mas de significado distinto: o primeiro casa é forma verbal do verbo casar; o segundo é substantivo. No poema de Olga Savary, também ocorrem palavras homófonas e homógrafas, de significado distinto: nada (forma do verbo nadar) e nada (pronome indefinido: coisa nenhuma).

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